Por: Ilo Jorge de Souza Pereira
Especialista
em Gestão Pública e Política.
Central de Tratamento de Resíduos Sólidos – CTRS
A
Central de Tratamento de Resíduos Sólidos – CTRS é o lugar onde
todos os tipos de resíduos encontram uma destinação final
ambientalmente adequada. Para realizar suas funções, a CTRS conta
com metodologia e tecnologia específica que varia em função das
características dos resíduos tratados. A legislação brasileira
determina que as soluções aplicadas no setor de resíduos considere
fatores como os aspectos sociais e regionais e todas as soluções
técnicas precisam ser respaldadas pelo diagnóstico do município e
dos resíduos. Considerando que no Brasil a diversidade é muito
grande, não pode ser possível ter um modelo tecnológico padrão
para uma central de tratamento de resíduos sólidos.
Composição
Para
realizar suas funções de maneira correta, a CTRS deve oferecer
soluções para os seguintes tópicos:
-
Recepção dos resíduos;
-
Separação dos resíduos de acordo com suas características físicas;
-
Destinação correta para os resíduos recicláveis ou reutilizáveis;
-
Tratamento dos resíduos sólidos orgânicos;
-
Destinação para os resíduos perigosos;
-
Destinação correta para os resíduos dos serviços de saúde;
-
Disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos.
A
CTRS pode interagir com a comunidade local e incentivar o
desenvolvimento sustentável agregando serviços de qualificação e
treinamento em:
-
Saúde ambiental;
-
Educação ambiental;
-
Operação e manutenção de máquinas e equipamentos;
-
Comércio de matéria prima secundária;
-
Gestão e Gerenciamento de Resíduos Sólidos;
-
Estágios para estudantes universitários;
-
Tecnologias de reciclagem;
-
Tratamento de resíduos orgânicos;
-
Destinação de resíduos dos serviços de saúde;
-
Entre outros.
Com
uma estrutura adequada, a CTRS pode contribuir significativamente
para a remedição dos lixões locais ou regionais.
Dimensionamento de uma Central de Tratamento de Resíduos Sólidos
A
estruturação e o dimensionamento de uma Central de Tratamento de
Resíduos Sólidos acontece de forma específica e deve ser feito
levando em consideração pelos menos os seguintes fatores:
Tamanho
da população:
A concepção de uma central ou usina acontece inicialmente baseada
na quantidade de resíduos a ser processada. A quantidade de pessoas
que habitam um município é um indicativo da quantidade de resíduos
produzidos.
Distribuição
geográfica do município:
Municípios são divididos em zonas urbana e zona rural. Para
comunidades muito afastadas ou de difícil acesso, é aconselhável
que os resíduos orgânicos sejam tratados no local onde foram
gerados.
Logística
dos resíduos:
Para comunidades pequenas muito distante ou de difícil acesso, é
aconselhável que os resíduos sem destinação final local sejam
devidamente armazenados e transportados somente quando atingirem uma
quantidade mínima. A logística dos resíduos influi nos custos
operacionais e na viabilidade econômica de um projeto.
Tipos
e quantidades de resíduos:
O
dimensionamento de uma central assim como a escolha da tecnologia
correta deve ser feita em função dos tipos e quantidades de
resíduos.
Viabilidade
econômica do projeto:
De uma maneira geral, dizemos que um projeto é economicamente viável
quando a venda dos produtos por ele comercializados são suficientes
para custear seu financiamento e custos operacionais além de gerar
lucro. A viabilidade econômica depende de um bom plano de negócio e
da capacidade administrativa dos gestores do projeto e tem ligação
direta com o dimensionamento do projeto. No vídeo abaixo você pode
ver como acontece a dedução de valor de uma usina.
Independente
do tamanho do município ou comunidade, a viabilização de uma
destinação final ambientalmente adequada de resíduos começa com o
processo de triagem. A central ou usina de triagem pode ser o começo
de integração de um projeto com a população de baixa renda ou com
os catadores de material reciclável ou reutilizável e deve estar
presente em todo e qualquer município ou comunidade.
Os
resíduos sólidos orgânicos sofrem decomposição que pode ser
acelerada em função da temperatura ambiente. Seu tratamento deve
levar em consideração as condições de armazenagem e transporte
até o local de seu tratamento. Aconselha-se que este tratamento
ocorra no local onde o mesmo é gerado.
Além
de tecnologias, as metodologias em forma de programas como o “lixo
Zero” podem impactar positivamente o setor de resíduos em qualquer
município. A educação e saúde ambiental são indispensáveis para
a gestão e gerenciamento de resíduos.
O
Plano Nacional de Resíduos Sólidos apresenta um estudo gravimétrico
médio para todos os municípios brasileiros como mostrado abaixo:
Estimativa
da composição gravimétrica dos resíduos sólidos urbanos
coletados no Brasil em 2008
Para
efeito de exemplificação e levando em consideração os dados
gravimétricos para os resíduos no Brasil apresentados no Plano
Nacional de Resíduos Sólidos, vejamos alguns possíveis modelos de
CTRS em função do tamanho da população.
Exemplos de Centrais de Tratamento de Resíduos Sólidos
Municípios ou comunidades com até 20.000 habitantes
Para
a municípios ou comunidades com até 20.000 habitantes pode ser que
a quantidade de resíduos não justifique o investimento em centrais
de reciclagem, biodigestores e aterros sanitários. As soluções
consorciadas podem ser uma bom caminho para esses municípios.
A
CTRS deve ter pelo menos uma Central de Triagem e formas corretas de
armazenagem de resíduos recicláveis, reutilizáveis e perigosos
para que os mesmos possam ser destinados a outros locais onde possam
sofrer processamento adequado.
Deve
ser feito um estudo de viabilidade (Plano de Negócio) para a
implantação de uma CTRS com usina de compostagem e locais para o
armazenamento de resíduos. Na figura abaixo você pode ver o
fluxograma de um exemplo de CTRS para esses municípios.
Os
biodigestores podem oferecer uma forma de geração de energia
descentralizada e ajudar significativamente no desenvolvimento do
município. A quantidade mínima de resíduos orgânicos para a
implantação de um biodigestor para municípios pequenos pode ser
alcançada agregando resíduos da agricultura (milho, soja, cana,
mandioca, caju, …) e/ou da pecuária.
Exemplo
de uma Central de Tratamento de Resíduos Sólidos para municípios
com até 20.000 habitantes
Municípios com até 200.000 habitantes
A
viabilização de usinas de reciclagem, compostagem, biodigestores, deve ser analisada cuidadosamente na forma de Planos de Negócio. Um
ponto sensível desses municípios é garantir a quantidade mínima
de resíduos a serem processados em centrais assim como o
fornecimento constante de material durante o ano.
Os
tipos de resíduos vão sofrer forte influencia das características
do município, apresentadas no Plano de Gestão Integrada de Resíduos
Sólidos Municipal. Em geral, onde o setor agropecuário é bem
desenvolvido, existe a viabilização de biodigestores. Caso
contrário, de usinas de compostagem. O mesmo princípio deve ser
utilizado para analisar empreendimentos no setor de reciclagem.
Uma
CTRS para municípios com até 200.000 habitantes poderia ter o
seguinte fluxograma:
Exemplo
de uma Central de Tratamento de Resíduos Sólidos para municípios
com até 20.000 habitantes
Um
estudo prévio deve definir o tamanho e o local de implantação de
um aterro sanitário como forma de disposição final ambientalmente
adequada de rejeitos.
Municípios com população a partir de 200.000 habitantes
Na
maioria dos casos esses municípios oferecem condições mínimas
para a viabilização de Centrais de Tratamento de Resíduos Sólidos
Sustentáveis com usinas de reciclagem para vários tipos de
resíduos, assim como biodigestores, tratamento de resíduos
perigosos e aterros sanitários. Para ser sustentável, a CTRS
precisa ter as seguintes características:
-
Para tornar uma CTRS energeticamente auto sustentável é necessário que CTRS produza sua própria energia, de preferência sem ter que importar nenhum combustível de qualquer tipo para isso. Excedentes energéticos podem ser comercializados localmente.
-
Para ter uma central economicamente viável, é preciso ter um diagnóstico dos resíduos (gravimetria) de qualidade para calcular o tamanho das centrais evitando assim gastos desnecessários. O centro administrativo precisa buscar contato com fornecedores de resíduos e compradores dos produtos reciclados. Os produtos fabricados na central devem levar em consideração a demanda local, regional, nacional e até internacional por produtos.
Veja
na figura abaixo, um exemplo de uma CTRS para municípios com mais de
200.000 habitantes:
A
central é constituída da uma usina de triagem, onde é feita a
separação dos resíduos, usinas de reciclagem para os vários tipos
de resíduos recicláveis, tratamento para resíduos perigosos,
hospitalares e orgânicos.
A
tecnologia escolhida varia em função da legislação local, do tipo
e da quantidade de resíduos recebidos diariamente e deve ser
escolhida a partir de estudos apresentados na forma de Planos de
negócio.
O
tratamento de resíduos sólidos orgânicos em biodigestores resultam
na geração de biogás e biofertilizantes. Parte do biogás deve ser
utilizado para a geração de energia elétrica e a outra parte pode
ser utilizada como energia térmica para um incinerador de resíduos
sólidos hospitalares. Dependendo da forma que for feita a CTRS,
todos os consumidores de energia elétrica podem ter sua demanda por
energia completamente coberta pela geração própria e o excedente
poderá ser comercializado através de uma distribuidora de energia
local.
Os
resíduos sólidos recicláveis poderão ser processados na própria
CTRS. Além disso, as usinas de reciclagem também servem para a
geração de mais emprego e renda. Um grande problema para a
implantação dessas usinas é justamente o alto custo operacional
causado pelo grande consumo de energia elétrica. Em uma CTRS desse
tipo, esse custo é extremamente baixo.
O
setor da Administração terá tarefas como identificar os melhores
mercados para os produtos fabricados na CTRS assim como os
fornecedores de resíduos. O centro de treinamento tem a grande
tarefa de qualificar todos os funcionários da central.
Observações
Quando
o assunto é tratamento de resíduos, precisamos separar estes em
pelo menos duas categorias. Os resíduos coletados no passado
(lixões) e os resíduos do presente e do futuro.
O
lixo dos lixões possuem um baixo grau de reaproveitamento o que os
torna inviável para a reciclagem ou para o tratamento. Isso acontece
porque normalmente a parte que poderia ser reciclada já foi coletada
por catadores de lixo e boa parte dos resíduos orgânicos já foram
ou estão em estado avançado de decomposição.
Em
alguns casos, ainda existem pequenas quantidade de resíduos
reaproveitáveis ou recicláveis nos lixões por isso, aconselha-se
direcionar esse material para a central de triagem.
Somente
na certeza de que no lixão só existem rejeitos deve-se direciona-lo
para um aterro sanitário.
O
lixo do presente e do futuro pode ser tecnologicamente totalmente
reaproveitado. Para isso, seguindo os princípios da PNRS, na CTRS os
resíduos sólidos orgânicos (RSO) podem seguir para um tratamento
bioquímico em biodigestores e o restante segue para as centrais de
reciclagem.
Uma
CTRS bem elaborada atende todas as exigências da PNRS e atrai
investidores do mundo inteiro.